Ultimas atualizações
  • Teste 1: Teste

  • CUSTOMIZAÇÃO DE MOTOS HD

  • PRODUTOS PARA HARLEY-DAVIDSON

  • TOMBO NA LAMA NO PR

  • RJ: SALÃO MOTO BRASIL

  • DIAVEL BLACK

  • ESPANHOL DE MOTOVELOCIDADE

  • BRASILEIRO DE MOTOCROSS

  • RECALL NA HONDA CRF 450 R

  • Post por // agosto 4, 2014

    Uma volta ao mundo sobre duas rodas. 5 continentes. 8 anos de estrada. Confira as aventuras deste motociclista paulistano que trocou a rotina pelas estradas mundo afora.

    Raphael Karan no Marrocos.  Foto: Arquivo Pessoal

    Raphael Karan no Marrocos.
    Foto: Arquivo Pessoal


    Já pensou passar oito anos viajando pelo mundo com sua motocicleta? Foi isso que Raphael Karan, paulistano de 53 anos e administrador de empresas, fez ao deixar a rotina de lado para se aventurar pelo mundo com sua Aprilia Pégaso 650 cc, neste projeto intitulado 5 Continentes, que rendeu um livro com o mesmo nome. Confira a entrevista e detalhes na íntegra. Veja também a sessão “Bate e Volta” com a personalidade do mês AQUI.
    MMB: Qual foi o momento que você decidiu abrir mão da sua rotina para realizar o projeto 5 continentes?
    Raphel Karan: tomar decisões não é nem nunca foi tarefa fácil. Seja na vida social, profissional ou familiar, elas nos afetam e a quem, de alguma forma, está a nós ligado. Quando se constrói uma carreira, empresa, família, criam-se laços cada vez mais fortes e os valores que damos a tudo isso nos fazem renunciar a outras coisas que gostaríamos, ou poderíamos, fazer ou ter. Quando ainda não se construiu, quando os laços ainda não são tão fortes ou quando ainda não estamos acomodados com a situação atual, a tomada de decisão rumo a uma nova possibilidade é geralmente menos traumática. Não era exatamente meu caso. Tinha um bom trabalho e, mesmo sem filhos, tinha esposa, família, sobrinhos, bons amigos, adorava e adoro meu país, os esportes que pratico, enfim, renunciar a tudo isso para trilhar um novo caminho, que não havia como saber se daria certo ou não, foram os motivos de tantos anos de espera. Em um dia de junho de 1999, estava indo para o escritório, como sempre de terno, vidro do carro fechado, ar condicionado ligado, lentamente me deslocando pela Marginal Pinheiros, em São Paulo, que já naquela época apresentava lentidão, observava os motociclistas passarem por mim. Foi neste momento, sem uma causa maior, sem um grande motivo, que sempre acreditei que necessitaria para tomar a decisão, que resolvi realizar meu maior sonho.
    MMB: Quais fatores o levaram a tomar a decisão?
    RK: O medo do arrependimento que poderia sentir no futuro, caso não optasse por seguir meu sonho.
    MMB: Como você se preparava para as viagens? O que levou? E o esqueceu?
    Passagem de Raphael Karan pela África.  Foto: Arquivo Pessoal

    Passagem de Raphael Karan pela África.
    Foto: Arquivo Pessoal


    RK: Pesquisei mapas rodoviários do mundo todo, calculando as devidas distâncias entre as cidades por todos os países que percorreria, o tempo necessário para isso, o clima nos diversos períodos, o equipamento e, principalmente, a verba necessária para a realização do projeto. Equipamento de segurança básico: capacete, jaqueta, calça, bota e luvas. Algumas peças sobressalentes, ferramentas de boa qualidade, mapas rodoviários, uma toalha de rosto, seis camisetas, duas ceroulas, uma bermuda, uma blusa de lã grossa, uma sunga, meias e cuecas. Para acampar: barraca, colchão inflável, saco de dormir, lanterna, cantil com água potável, fogareiro, panelinha, copo plástico, corda fina para o varal, uma faca de tamanho razoável para poder cavar um buraco para as fezes e garrafa plástica de suco ou leite, com tampa e boca larga para o xixi noturno. Para registro: uma agenda pequena, câmera fotográfica, filmadora e um gravador. Esqueci um calibrador de pressão para os pneus, mas aprendi que o melhor equipamento é nossa força de vontade. Tudo se ajeita.
    MMB: Quais foram as maiores dificuldades, perigos? Problemas com a moto, acidentes, doenças?
    RK: Eu não tinha o famoso “Carnet de Passages en Douane”, que é um documento internacional reconhecido pelas alfândegas do mundo todo. Para obtê-lo, tem que se fazer um depósito em um banco no valor do veículo ou próximo dele, que fica sob custódia, e só pode ser retirado quando o veículo voltar ao país de origem. Porém, as autoridades brasileiras não emitem esse documento, o que acabou se tornando meu pesadelo nas fronteiras dos países asiáticos. A moto apresentou alguns problemas na parte elétrica como relê de partida, regulador de voltagem, bateria, termostato do radiador, mas nada que comprometesse a viagem.
    Na África eu me desidratei, contraí duas vezes malária, tifoide, além dos tradicionais e já esperados “desarranjos intestinais”. Nunca sofri um acidente sequer e perigo é pilotar moto em São Paulo em especial, e no Brasil em geral.
    MMB: Você teve dificuldade em se adaptar com alguma cultura? E com os idiomas? Você fala várias línguas?
    RK: A Índia é diferente de tudo que já havia visto e ainda veria, porém há um ditado entre os viajantes que recomenda: “Antes de partir, rasgue seu passaporte” – significa dizer, não espere encontrar sua cultura, seu jeito de fazer as coisas, as regras às quais está acostumado, porque o mundo não é padronizado, e ainda bem que não é, porque seria tudo muito chato. Se não quer desafios, se não respeita diferenças, tem dificuldade de adaptação, só come batata frita, vá pra Miami.
    Falo Inglês e Espanhol, mas não é o bastante. Em muitos lugares que passei tive de fazer uso da mímica para me expressar, porém aprendi que as expressões corporais mudam muito de um país para outro e mais ainda em relação ao Brasil. Tanto na Turquia como no Irã, o gesto para dizer ‘sim’ é feito movendo a cabeça apenas uma vez para baixo. O ‘não’ é feito com um movimento só, para cima. Lembro que quando perguntava algo cuja resposta era negativa, faziam este movimento negativo, levando a cabeça para cima, e eu não entendendo, perguntava novamente. Para agradecer, eles levam a mão ao peito, e no Irã, para lhe darem algo, o fazem com as duas mãos. No Paquistão, o ‘sim’ é um movimento com a cabeça para apenas um dos lados.
    MMB: O que mais deixou saudade das suas viagens?
    Raphael observa o Machu Picchu, no Peru. Foto: Arquivo Pessoal

    Raphael observa o Machu Picchu, no Peru.
    Foto: Arquivo Pessoal


    RK: A ausência de rotina, as noites sob o céu coberto de estrelas, a hospitalidade que recebia de pessoas desconhecidas, os desafios para me manter vivo, a fauna, as paisagens e sobretudo as pessoas mais interessante que já conheci na vida.
    MMB: E qual é a maior lição que fica disso tudo?
    RK: Que o sonho é possível. Tantos escritores nos dão seus exemplo de vida, mostrando que o sonho é possível e que as oportunidades devem ser criadas por nós e não dadas à revelia da sorte. Assim como eu fui inspirado por eles décadas atrás, gostaria também que meu livro – Projeto 5 Continentes fosse exemplo de sonho materializado, para tantas pessoas que têm planos de tirar seus sonhos da prateleira e pô-los na estrada. Acredite, pois não existe sonho impossível. Você porém deve batalhar por ele.
    MMB: Você é casado? Era casado na época da viagem?
    Sou casado e tenho dois moleques – o Felipão com 3 anos e o Pedrão com oito meses. Eu viajava muito então não havia tempo para treinar (risos!). Espero ansioso a idade adequada para poder levá-los a viajar comigo. Era casado anteriormente, mas priorizei minha viagem em detrimento ao primeiro casamento.
    MMB: Fale um pouco sobre o livro Projeto 5 Continentes e onde encontrá-lo.
    RK: Projeto 5 Continentes é uma viagem de descobertas pelos confins da Terra. É um relato sensível e abrangente da história de um homem que sonhou conhecer o mundo e conheceu. A narrativa não se limita a uma viagem de moto, nem a roteiros turísticos, nem a um mapa de paisagens – são experiências vividas durante oito anos com aborígenes australianos, hospitaleiros iranianos, místicos sadhus indianos, despossuídos africanos subsaarianos, sem deixar de mencionar as causas e os efeitos das muitas intervenções estrangeiras na vida desses povos. O humor e as trapalhadas deste autor, que aprendeu a rir de si mesmo, estão presentes neste livro. O selo é da Editora RV – Richard Veiga e o Editor é o Geraldo “Tite” Simões. Ele está disponível nas livrarias Saraiva, Siciliano, Fnac e outras redes.
    MMB: Qual é a sua dica para pessoas que pretendem viajar com suas motos?
    RK: Opte por um roteiro que lhe atraia, pesquise antes, saiba dimensionar a bagagem, se possível viaje durante a luz do dia, não se exponha a riscos desnecessários, atenção para aquisição de um bom equipamento de segurança, faça manutenção básica na moto antes de partir e lembre-se que as duas maiores virtudes de um viajante são prudência e paciência.
    Por Amanda Gelumbauskas
    Colaboração para o MMB

    © Todos os direitos reservados - 2018